Reinventar o Social: Movimentos e Narrativas de Resistência, Dissidência e Reconciliação nas Américas

Universidade de Coimbra, Portugal, 22-24 de Março de 2018

As lutas sociais e a resistência às elites dominantes têm uma longa história nas colónias e nações das Américas, passando pelas guerras de independência e insurreição de escravos, movimentos pelos direitos das mulheres, revoltas de trabalhadores e camponeses, movimentos indígenas ou protestos contra as guerras dos E.U.A. no Vietnam e no Iraque. Desde a Segunda Guerra Mundial, novas formas nacionais e internacionais de desigualdade, e novas dinâmicas nas sociedades e nos meios de comunicação têm aumentado progressivamente a nossa consciência sobre os diversos modos  como o social continua a ser renegociado, do Alasca à Terra do Fogo.

As décadas mais recentes têm-se caraterizado por novas abordagens à relação espácio-temporal e por novas redes socias, mediacionais e relacionais; a invenção, a invocação e a narração das tradições, da história e do património servem de elementos chave na criação de novos laços sociais com as gerações anteriores; com a passagem para o novo milénio, grupos sociais anteriormente excluídos têm tido um papel proeminente na reinvenção do social e das suas normas; uma sociedade civil enfraquecida tem aberto espaço à influência dos extremismos; jovens desempregados e sem perspetivas de futuro tentam encontrar novas formas de expressão e intervenção; grupos desprivilegiados manifestam-se nas ruas e através da internet; as redes sociais abrem novos canais e formatos de expressão; a literatura promove a consciência para causas justas; artistas em diversas áreas traduzem e dão forma a estes pensamentos e sentimentos; sociólogos e politólogos oferecem novas interpretações e teorias do social.

Por um lado, o Presidente Justin Trudeau foi capaz de nomear um dos governos mais amplos em termos da representação social na história do Canadá; por outro, o Presidente indígena, Evo Morales, na Bolívia, e o ex-Presidente afro-americano, Barack Obama, nos E.U.A., conseguiram promover imaginários multi- e pluriculturais, questionando as relações sociais baseadas na colonialidade. Paralelamente, discussões recentes sobre conceitos indígenas de “Buen vivir” reclamaram e apontaram para relações mais equilibradas entre a natureza e a sociedade. Apesar de a hegemonia dos E.U.A. ter vindo a diminuir, a eleição de Donald Trump e o seu nostálgico chavão “Make America Great Again” irão ter efeitos globais, especificamente nas Américas. No centro da discussão estão também questões de imigração e o regresso da estigmatização de diferenças raciais, étnicas, religiosas, sexuais ou de género; o muro na fronteira com o México, reformas nas políticas de imigração, o tratamento da população muçulmana e o acolhimento de refugiados – principalmente do Médio Oriente –, tal como questões feministas, políticas ambientais e direitos humanos em geral.

A crise financeira de 2008 com origem nos E.U.A., seguida da recessão económica mundial, aprofundou o fosso entre o Norte e o Sul, levou ao enfraquecimento da classe média, diminuiu os poderes da classe trabalhadora, devolveu o poder à direita em várias regiões, e aumentou a tensão entre partidos. A extrema-direita neoliberal tem crescido em muitos países das Américas, como a Argentina e o Brasil. Para além dos problemas económicos e dos efeitos negativos da globalização no mundo do trabalho, a falta de eficiência política para os minimizar, a corrupção aos mais altos níveis e a intolerância social relativamente a imigrantes e refugiados inspiraram novos nacionalismos e fascismos, que estão a afetar seriamente a democracia.

Os produtores culturais atuam, muitas vezes, como sismógrafos, ao revelar fricções e fissuras, enquanto os movimentos sociais dão expressão política ao descontentamento quotidiano; os media criam e fazem circular ideias e imaginários, e a academia reflete e teoriza sobre as mudanças do mundo social. Tendo em conta as conceptualizações da ideia de comunidade por parte de teóricos como Jacques Derrida (“community under erasure”), Jean-Luc Nancy (“the inoperative community”), Giorgio Agamben (“the coming community”), Bruno Latour (“reassembling the social”), assim como o imaginário sociológico de Boaventura de Sousa Santos (“epistemologias do Sul,” “ecologia de saberes”), pretendemos encorajar uma ampla discussão sobre noções do social, nas suas configurações mais antigas e mais recentes.

Porém, o social também é criado pelos “think tanks” das tecnologias sociais, assim como por rumores, anedotas e insinuações; uma pluralidade de formações sociais, sempre em transição e em processo de mudança resistem à fixação e à uniformização, enquanto as suas necessidades, aspirações e motivações heterogéneas e talvez contraditórias chamam a nossa atenção. Pretendemos explorar estas linhas de investigação e discussão, usando como estudos de caso teorias passadas e recentes sobre a definição do social e sobre o modo como se podem aplicar ao contexto das Américas, às crises e lutas sociais do passado e do presente, juntamente com as diferentes respostas e narrativas que têm gerado, sejam elas criativas e emancipatórias, ou conservadoras e reacionárias.

O nosso propósito é, pois, explorar formas de intervenção, relação, tradução, negociação, solidariedade ou aliança, tanto antigas como atuais, que promovam a emancipação daqueles e daquelas que foram silenciados/as por fórmulas hegemónicas e hierárquicas. Através do debate e da exploração de novos territórios, pretendemos contribuir para a criação de uma nova gramática e pedagogia do social, a partir de perspectivas epistemológicas e práticas sobre as Américas.

Algumas questões a abordar são, por exemplo:

  • Que formas de resistência e dissidência operaram nas Américas durante séculos e que discursos e narrativas as acompanharam?
  • De que modo é que as narrativas geram e entrelaçam diferentes vozes, diferentes grupos e aspirações comunitárias, em relação ao futuro e ao passado?
  • Quem são os/as novos/as protagonistas dos mais recentes movimentos sociais e mediáticos?
  • Que reações e transformações têm sido geradas e promovidas por estes/as protagonistas?
  • Quais os efeitos da reinvenção do social nos meios de comunicação mais tradicionais e/ou em expressões artísticas?
  • Como é que estas novas formações sociais e movimentos têm operado nas Américas?
  • Quais são as novas narrativas que dominam o mundo social e quem é responsável por elas?
  • De que modo têm as respostas criativas resistido à crescente cultura do medo e do terror criada pelas novas políticas de segurança pública?
  • Que novas formas de expressão social e expressão criativa têm surgido e como  têm atuado?
  • Como é que estas recentes expressões incorporam ou resgatam as experiências coloniais e imperiais e as suas memórias?
  • De que maneiras se relacionam estas expressões com o estado e com a rua?
  • Quais são as novas alianças que começam a formar-se nestes contextos?
  • Com que formas de sociabilidade, solidariedade e imaginação estas alianças podem contar?
  • Que realidades estão ausentes dos discursos contemporâneos sobre o social e quais as novas formas de resistência em formação?
  • Que papéis assumem a política do corpo, a transnacionalidade, a economia e o cosmopolitismo, nestes contextos?
  • Que novos movimentos sociais estão a emergir como parte de um social reinventado?
  • Se considerarmos todas as forças em jogo na reinvenção do social, de que forma é que os processos de integração, assimilação e apropriação cultural têm sido redefinidos?
  • Que espaços e papéis têm sido atribuídos às comunidades/indivíduos ditos descartáveis?
  • Como é que comunidades e produtores culturais lidam com uma política de categorização e estereotipagem de perfis raciais/étnicos/sexuais e de género?
  • Como é que comunidades e produtores culturais reagem a políticas de criminalização, encarcera­mento, violência, deportação e rejeição de asilo?
  • Como é que sociedades e produtores culturais lidam com múltiplas identidades sexuais e de género e suas categorizações?
  • Como é que grupos sociais e produtores culturais enfrentam os efeitos da deflorestação e outros desastres ecológicos?

Este fórum multidisciplinar de intercâmbio académico convida contributos de todas as disciplinas interessadas em formações sociais, movimentos sociais, comunidades, formas de expressão social e cultural, literária, artística e  performance nas Américas.

É favor enviar propostas para apresentações individuais ou painéis (com um/a coordenador/a e 3 ou 4 comunicações) para conference@interamericanstudies.net até ao dia 31 de Agosto de 2017. Aceitamos propostas em Inglês, Espanhol e Português (uma única proposta por participante); cada apresentação dispõe de cerca de 20 minutos.

Encorajamos vivamente a participação de doutorando/as. 

É favor incluir nome, instituição, título da apresentação ou do painel, um resumo (300 a 400 palavras), 5 palavras-chave no máximo, e contacto(s) de email.  A indicação de aceitação da proposta será transmitida até ao final de Outubro.

Mais informações: http://www.interamericanstudies.net/?page_id=6447.

Instituição Organizadora: Universidade de Coimbra, Portugal (Faculdade de Letras/FLUC e Centro de Estudos Sociais/CES)

Comissão Organizadora: Isabel Caldeira (FLUC/CES); Maria José Canelo (FLUC/CES); Silvia Rodrigues Maeso (CES); Elsa Lechner (CES); Susana Araújo (CEC, FLUL); Gonçalo Cholant (FLUC/CES); Inês Costa (FLUC/CES); Rita Santos (FLUC/CES); Begoña Dorronsoro (CES).

Comissão Científica: Isabel Caldeira (Universidade de Coimbra, Portugal), Olaf Kaltmeier (Universidade de Bielefeld, Alemanha); María Herrera-Sobek (UC Santa Barbara, EUA); Alexia Schemien (Universidade de Duisburg-Essen, Alemanha); Ulla Kriebernegg (Universidade de Graz, Áustria).

 

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